segunda-feira, 16 de abril de 2012

Kosher x halal: política com gosto duvidoso

Salut mes amis!

Você já ouviu, alguma vez na sua vida, falar em halal? Não? E em kosher? Não faz a mínima ideia? Nem eu, mas são coisas que eu aprendi na França. Você deve estar se perguntando o que isso tem haver com a seção do blog. Ultimamente, essas duas palavrinhas tão causando um furor aqui na França, entrando até em destaque nas campanhas presidenciais.

Vamos começar primeiro com as definições. Halal é uma palavra árabe que significa "permitido", utilizada pelos mulçumanos para se referir a todos os tipos de práticas aceitas pela religião islâmica. O "abbatage halal" é o método de abate de animais descrito no Corão. Somente um muçulmano que já ultrapassou a puberdade pode realizar o abate, que consiste em matar o animal com um corte na artéria carótida e deixá-lo sangrar. O animal deve ter sua cabeça virada para Meca e, antes de sua morte, deve ser recitada uma prece.




Kosher, por sua vez, é o termo em hebraico que designa um alimento próprio para consumo segundo os judeus. Pelo que eu li na Internet, o método de abate kosher é bem parecido com o halal, já que também deve-se matar o animal com um golpe só no pescoço e tirar dele todo o sangue, evitando sempre que o animal sofra o menos possível. No entando, a pessoa designada para realizar o abata é o Sochet e a prece recitada antes do abatimento esta inscrita no Talmud (uma especie de compilação das leis orais do judaísmo). Uma das diferenças entre os dois, por exemplo, é que no caso dos judeus partes do corpo como esôfago e traqueia devem ser cortados sem danificar os ossos. Outra diferença está na parte dos animais que pode ser consumida.





Até ai nada, né? Cada um com seu ritual, na boa. Só que no dia 28 de fevereiro, a QUE-RI-DA candidata à presidência do partido de extrema-direita francês, Marine Le Pen, afirmou em coletiva que toda a carne que circula na região de Île-de-France (Paris e arredores) é 100% de origem halal. Aí, minha gente, o negócio pegou fogo. Uma das regiões mais cosmopolitas do mundo ferveu. Uma longa discussão se iniciou sobre a necessidade de identificação do abate nas embalagens e etc, gente falando nos jornais, TV, radio, chegando até à possibilidade de criar uma lei aue regulamentasse essa identificação.








O Conselho Europeu, no entanto, se colocou contra a obrigação de etiquetagem dos produtos, a fim  de evitar discriminações e possíveis boicotes. Muitos politicos franceses, no entanto, ficaram em cima do muro. Nicholas Sarkozy, atual presidente francês e candidato à reeleição, tratou logo de desmentir os dados veiculados por Le Pen e colocar panos quentes sobre a situação. Mas em seguida, se colocou a favor de uma etiquetagem com relação à forma de abate dos animais. François Hollande, candidato socialista, acusou Sarkozy de fazer lobby e disse que segundo ele bastasse que os animais fossem abatidos em condições sanitárias segundo a regulamentação francesa. E assim mais um enclave foi levantado na corrida para as eleições.


Sinceramente, já comi carne dos dois tipos e pra mim o gosto é exatamente o mesmo. Logicamente que respeito aqueles que possuem suas práticas e não estou menosprezando nenhuma delas aqui. Quando vou ao mercado, encontro várias marcas que, muito antes da discussão em questão, já identificavam seus produtos (vide foto acima) pela forma de abate, até para que as comunidades em questão possam seguir seus rituais conforme desejam. Então, visto que essas identificações já partiram das próprias empresas, acredito ser desnecessária uma lei nacional que exija a identificação. Acho que aqueles que seguem uma religião específica com tantas restrições conhecem as marcas e produtos que atendem às delimitações nas quais vivem. Sem contar que, aqui na França, acho que essa lei poderia incitar sim atos discriminatórios. Talvez seria interessante uma identificação internacional padronizada, não só para esses dois produtos mas para todos que sigam preceitos religiosos específicos, para garantir que estes estejam conforme suas práticas desejam, mas ainda assim acredito que isso seria uma bomba no comércio internacional e aumentaria ainda mais o preconceito entre as pessoas


Mas acho incrível como isso aqui virou um "trending topic". Qualquer pontinho vira ponto de discussão. Nos discursos dos candidatos à eleição (e também na mente de muitas pessoas), essa questão do halal já puxou discriminação, imigração, educação...E num país que prega tanto a liberdade de expressão e a laicidade de seu governo, acho um absurdo ver candidatos como Le Pen afirmando que tornaria o abate halal ilegal na França (vale ressaltar que a candidata extremista tem cerca de 10-15% de intenção de votos). É estranho o conceito de liberdade de expressão e de credo defendido pelas pessoas. 

Essa polêmica, como tantas outras (como a lei contra os véus, as pesquisas de "identidade nacional"), futucou na ferida dos franceses: até que ponto o conceito de liberdade se aplica na realidade? Qual é a linha tênue que separa aceitação e discriminação?




Fontes:

http://www.upi.com/Top_News/World-News/2012/03/07/Halal-meat-a-big-issue-in-French-election/UPI-18211331138581/
http://www.icare.to/article.php?id=38124&lang=en
http://ae.imcode.com/es/1138?template=ReferenceText

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